terça-feira, 19 de março de 2013
Civilização Árabe - A história dos Árabes
A civilização árabe ou islâmica surgiu no Oriente Médio, numa península desértica situada entre a Ásia e a África. É área de aproximadamente um milhão de quilômetros quadrados, com centenas de milhares recobertos por um enorme deserto, pontilhados por alguns oásis e por uma cadeia montanhosa, a oeste. Somente uma estreita faixa no litoral sul da península possui terras aproveitáveis para a agricultura.
Até o século VI, os árabes viviam em tribos, sem que houvesse um Estado centralizado. No interior da península havia tribos nômades de beduínos, que viviam basicamente do pastoreio e do comercio. Às vezes entravam em luta pela posse de um oásis ou pela liderança de uma rota comercial. Também era comum o ataque a caravanas que levavam artigos do Oriente para serem comercializados no Mar mediterrâneo ou no Mar Vermelho.
Apesar de dispersos num grande território os árabes edificaram algumas cidades, entre as quais as mais importantes localizavam-se a oeste, na parte montanhosa da Península Arábica. Eram elas: latribe, Taife e Meca, todas na confluência das rotas das caravanas que atingiram o Mar Vermelho. A cidade de Meca era, sem dúvida, a mais destacada, pois, como centro religioso de todos os árabes, ali se reuniam milhares de crentes, o que tornava seu comércio ainda mais intenso.
Embora fossem politeístas e adorassem diversas divindades, os ídolos de todas as tribos estavam reunidas num templo, chamado Caaba, situado no centro de Meca. A construção, que existe até hoje, assemelha-se a um cubo e, assim como a administração da cidade, ficava sob os cuidados da tribo dos coraixitas.
Maomé, o Profeta
Maomé, que iria causar enormes transformações em seu povo e no mundo, nasceu por volta de 570, na poderosa tribo dos coraixitas.
Tendo sido por muito tempo guia de caravanas, Maomé percorreu o Egito, a Palestina e a Pérsia, conhecendo novas religiões, como o judaísmo e o cristianismo. A grande transformação de sua vida teve lugar quando, já bem estabelecido economicamente, divulgou que tivera uma visão do anjo Gabriel - entidade da religião cristã - em que este lhe revelara a existência de um deus único. A palavra deus, em árabe, se diz Alá.
Começou então a pregar o islamismo, ou seja, a submissão total a Alá, com a conseqüente eliminação de todos os outros ídolos. Os crentes na nova religião eram chamados muçulmanos ou maometanos.
A revelação feita a maomé e todas as suas pregações estão reunidas no Corão, o livro sagrado dos muçulmanos e primeiro texto escrito em árabe. Além da submissão total a Alá, o Corão registra as seguintes regras fundamentais para os muçulmanos: orar cinco vezes por dia com o rosto voltado para Meca; jejuar regularmente; dar esmolas; peregrinar ao menos uma vez na vida para Meca. Com os ensinamentos de Maomé se instalaram também outras regras de comportamento individual e social, como a proibição de consumir carne de porco, de praticar jogos de azar e de reproduzir a figura humana, além da defesa da autoridade do pai na família e da permissão da poligamia masculina.
Os habitantes de Meca, temerosos de perder o comércio as caravanas de fiéis que se dirigiam à Caaba, passaram a perseguir Maomé, e a maioria da população árabe da cidade não aderiu ao seu monoteísmo. Maomé foi obrigado, então, a fugir para latribe, que passou a chamar-se Medina, nome que significa a "cidade do profeta". Essa fuga, que ocorreu em 622, é chamada de héregia e indica o início do calendário muçulmano, tendo, para esse povo, o mesmo significado que o nascimento de Cristo tem para os cristãos.
Gradualmente, o número de crentes em Alá foi aumentando e, apoiado nessa força, Maomé começou a pregar a Guerra Santa, ou seja, a expansão do islamismo, através da força, a todos os povos "infiéis". O grande estímulo era dado pela crença de que os guerreiros de Alá seriam recompensados com o paraíso, caso meressem em luta, ou com a partilha do saque das cidades consquistadas, caso sobrevivessem. A Guerra Santa serviu para unificar as tribos árabes e tornou-se um dos principais fatores e permitir a expansão posterior do islamismo.
A Expansão Muçulmana
Após a morte, Maomé foi substituído pelo califas - os "sucessores do profeta" - que eram chefes religiosos e políticos. Com os califas iniciou-se a expansão da civilização muçulmana, motivada principalmente pela necessidade de terra férteis que o aumento populacional da Península Arábica após a unificação das tribos exigia.
Os guerreiros islâmicos, impulsionados pela crença no paraíso após a morte e pelas recompensas terrenas, avançaram rapidamente, aproveitando-se dafraqueza de seus vizinhos persas e bizantinos. Caracterizando-se, em geral, pelo respeito aos costumes dos povos vencidos, os muçulmanos dominaram toda a Península Arábica. Expandindo-se para leste, alcançaram a Índia e, estendendo-se em direção ao Mar Mediterrâneo, conquistaram o norte da África e parte da Península Ibérica.
Apesar do avanço muçulmano na Europa ter sido freado na Batalha de Poitiers, em 732, pelo franco Carlos Martel, os árabes ainda conseguiran consquistar as ilhas Baleares, a Sicília, a Córsega e a Sardenha. A extensão dos domínios muçulmanos pelo Mediterrâneo prejudicou o comércio da Europa Ocidental com o Oriente. Este foi um dos fatores que contribuíram para o isolamento dos reinos bárbaros cristãos que voltaram mais ainda para uma economia agrícola e rural, o que contribuiu para a formação do feudalismo.
A tolerância dos muçulmanos para com os povos conquistados permitiu-lhes atingir grande progresso econômico e cultural, pois, utilizando elementos próprios e de outras culturas, desenvolveram conhecimentos e técnicas valiosas até hoje. Foi o caso do uso da bússola e da fabricação do papel e da pólvora, aprendidos com os chineses e introduzidos no Ocidente. Em virtude da enorme extensão de seu império, os árabes defundiram o cultivo de produtos agrícolas, como a cana-se-açucar, o algodão, o arroz, a laranja e o limão. No campo das ciências desenvolveram a Matemática, com muitas contribuições à Álgebra, Geometria, Trigonometria e Astronomia. Os algarismos que usamos atualmente são uma herança indiana transformada e transmitida aos ocidentais pelos árabes, daí serem chamados arábicos. Até mesmo a palavra algarismo deriva da lingua árabe. A Medicina que desenvolveram baseou-se nos conhecimentos dos gregos.
Séculos mais tarde, os turcos, originários da Ásia Central e seguidores dos islamismo, conquistaram grande parte dos domínios muçulmanos. Eles formaram no século XIV o Império Turco, que englobou esses domínios e acabou, depois de várias tentativas, conquistando o Império Bizantino, com a tomada de Constantinopla em 1453.
Fonte: História do Mundo
sexta-feira, 15 de março de 2013
Dicas Culturais do Fim de Semana - 15 a 17 de março
CINEMA
Anna Karenina [Reino Unido, 2012], de Joe Wright (Universal). Gênero: drama. Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Johnson, Kelly Macdonald. Sinopse: Baseado no romance de Leon Tolstói. Anna, uma jovem presa em um casamento sem amor, mantém um relacionamento com o Conde Vronsky. Abertura nos EUA: US$ 320,6 mil (em 16/11/2012). Dif. (segundo fim de semana): +180%. Acumulado nos EUA: US$ 11,5 milhões. Duração: 95 min. Classificação: 14 anos.
A busca [Brasil, 2011], de Luciano Moura (Downtown/Paris/RioFilme). Gênero: drama. Elenco: Wagner Moura, Lima Duarte, Mariana Lima, Brás Antunes. Sinopse: Médico, filho de um pai ausente, pega a estrada para procurar o filho que desapareceu. Duração: 96 min. Classificação: 12 anos.
Francisco Brennand [Brasil, 2012], de Mariana Fortes (Video Filmes/Espaço Filmes). Gênero: documentário. Sinopse: O filme mostra o universo particular do pintor, escultor e ceramista pernambucano Francisco Brennand, que aos 80 anos decidiu romper o silêncio para revelar os segredos de sua arte e sua vida dentro da Oficina Cerâmica. Duração: 75 min.
A fuga [Deadfall, EUA, 2012], de Stefan Ruzowitzky (Playarte). Gênero: drama. Elenco: Olivia Wilde, Eric Bana, Charlie Hunnam, Kate Mara. Sinopse: Dois irmãos fugitivos se encontram com um problemático ex-boxeador. Abertura nos EUA: US$ 19,3 milhões (em 7/12/2012). Duração: 95 min. Classificação: 16 anos.
Linha de ação [Broken City, EUA, 2012], de Allen Hughes (Imagem). Gênero: drama. Elenco: Mark Wahlberg, Russel Crowe, Catherine Zeta-Jones, Kyle Chandler. Sinopse: Ao seguir a mulher do prefeito de Nova York, ex-policial se envolve em um grande escândalo. Abertura nos EUA: US$ 8,2 milhões (em 18/01/2013). Dif. (segundo fim de semana): -51%. Acumulado nos EUA: 15,2 milhões. Duração: 109 min. Classificação: 14 anos.
Pieta [Pietà, Coreia do Sul, 2012], de Kim Ki-duk (California). Gênero: drama. Elenco: Jo Min-soo, Kang Eunjin, Kim Jae-rok. Sinopse: Agiota é forçado a reconsiderar seu violento estilo de vida depois da chegada de uma misteriosa mulher que diz ser sua mãe. Duração: 104 min.
Super Nada [Brasil/México, 2012], de Rubens Rewald e Rossana Foglia (Lume). Gênero: comédia. Elenco: Marat Descartes, Jair Rodrigues, Clarissa Kiste, Denise Weinberg. Sinopse: Guto é um ator que sonha em ficar famoso. Quando seu caminho se cruza com o de seu grande ídolo, o comediante decadente Zeca, parece que a sorte de Guto irá mudar. Duração: 94 min. Classificação: 16 anos.
Rio de Janeiro
SHOW
Barão Vermelho
15 de março de 2013
A turnê “+1 dose”, que celebra os 30 anos de lançamento do primeiro álbum da banda, intitulado “Barão Vermelho”, chega ao Circo Voador com Guto Goffi (bateria), Roberto Frejat (guitarra e voz), Peninha (percussão), Rodrigo Santos (baixo), Fernando Magalhães (guitarra) e Maurício Barros (teclado), numa participação especial. O repertório tem sucessos antigos, como “Música de amor”, “Você sabe”, “Fale mal de mim” e “A 300 km por hora” estão no roteiro. Hoje, a pista é comandada pelo DJ Edu Rio.
Local: Circo Voador
Endereço: Rua dos Arcos, S/N - Lapa - Rio de Janeiro - RJ
Horário: 23h59
Preço: R$120 (inteira) R$60 (meia)
Classificação: 18 anos.
TEATRO
A arte e a maneira de abordar seu chefe para pedir um aumento
15 e 16 de março de 2013
Um homem apresenta um organograma, complexo e irônico, sobre as possibilidades de sucesso e fracasso na angustiante missão de pedir um aumento salarial.
Local: Galpão Gamboa
Endereço: Rua da Gamboa, 279 - Gamboa - Rio de Janeiro - RJ
Horário: Sexta e Sábado às 21h
Duração: 60 min.
Preço: R$ 20
Classificação: 12 anos
EXPOSIÇÃO
Polaridades - Coleções MAM
de 16 de março a 12 de maio de 2013
Um bolo (de atividades) terá sua primeira fatia servida na inauguração da exposição “Polaridades — Coleções MAM”, que marca o início das comemorações pelos 65 anos do museu — que, à época de sua fundação, era sediado no edifício do antigo Banco Boa Vista, na Praça Pio X.
Distribuída em duas salas, a mostra organizada por Luiz Camillo Osorio e Marta Mestre conta com uma saborosa seleção de artistas nacionais e estrangeiros. São 27 obras produzidas entre 1950 e 1974, pertencentes às coleções MAM-Rio e Gilberto Chateaubriand/MAM-Rio.
— A exposição percorre dois caminhos: parte do conjunto de obras segue a linha geométrica, e a outra assume uma característica gestual, informal — comenta Osorio.
Ilustram o elenco brasileiro Ivan Serpa (1923-1973), Willys de Castro (1926-1988), Lygia Clark (1920-1988) e outros. Na lista internacional, figuram Jackson Pollock (1912-1956), Gerhard Richter e Josef Albers (1888-1976), entre outros.
— A Lygia Clark (representada por cinco “Obras-moles”, de 1964 a 1987) é o elo da mostra, pois articula as duas linhas. Também destacaria o trabalho de Pollock (pintura “N 16”, de 1950, doada por Nelson Rockfeller) — diz o curador.
Para o ano, estão previstas uma conversa sobre o legado de Serpa, um estudo sobre a mítica Sala Experimental, que agitou o meio das artes visuais nos anos 70, e outras ações. (Carolina Ribeiro)
Local: Museu de Arte Moderna - MAM
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 - Flamengo - Rio de Janeiro - RJ
Horário: Terça a Sexta, das 12h às 18h | Sábado e Domingo, das 12h às 19h
Preço: Gratuito
Classificação: Livre
Um homem apresenta um organograma, complexo e irônico, sobre as possibilidades de sucesso e fracasso na angustiante missão de pedir um aumento salarial.
Local: Galpão Gamboa
Endereço: Rua da Gamboa, 279 - Gamboa - Rio de Janeiro - RJ
Horário: Sexta e Sábado às 21h
Duração: 60 min.
Preço: R$ 20
Classificação: 12 anos
EXPOSIÇÃO
Polaridades - Coleções MAM
de 16 de março a 12 de maio de 2013
Um bolo (de atividades) terá sua primeira fatia servida na inauguração da exposição “Polaridades — Coleções MAM”, que marca o início das comemorações pelos 65 anos do museu — que, à época de sua fundação, era sediado no edifício do antigo Banco Boa Vista, na Praça Pio X.
Distribuída em duas salas, a mostra organizada por Luiz Camillo Osorio e Marta Mestre conta com uma saborosa seleção de artistas nacionais e estrangeiros. São 27 obras produzidas entre 1950 e 1974, pertencentes às coleções MAM-Rio e Gilberto Chateaubriand/MAM-Rio.
— A exposição percorre dois caminhos: parte do conjunto de obras segue a linha geométrica, e a outra assume uma característica gestual, informal — comenta Osorio.
Ilustram o elenco brasileiro Ivan Serpa (1923-1973), Willys de Castro (1926-1988), Lygia Clark (1920-1988) e outros. Na lista internacional, figuram Jackson Pollock (1912-1956), Gerhard Richter e Josef Albers (1888-1976), entre outros.
— A Lygia Clark (representada por cinco “Obras-moles”, de 1964 a 1987) é o elo da mostra, pois articula as duas linhas. Também destacaria o trabalho de Pollock (pintura “N 16”, de 1950, doada por Nelson Rockfeller) — diz o curador.
Para o ano, estão previstas uma conversa sobre o legado de Serpa, um estudo sobre a mítica Sala Experimental, que agitou o meio das artes visuais nos anos 70, e outras ações. (Carolina Ribeiro)
Local: Museu de Arte Moderna - MAM
Endereço: Av. Infante Dom Henrique, 85 - Flamengo - Rio de Janeiro - RJ
Horário: Terça a Sexta, das 12h às 18h | Sábado e Domingo, das 12h às 19h
Preço: Gratuito
Classificação: Livre
quinta-feira, 14 de março de 2013
Primavera árabe: ‘Há que se passar pela experiência do islamismo no poder’
por Renata Nogueira
Nesta entrevista ao ‘Le Monde’, o destacado analista libanês Gilbert Achcar comenta as dificuldades dos governos islâmicos que subiram ao poder no mundo árabe. Além disso, diz que a Turquia não é uma referência para esses países, pois lá o AKP turco se reconciliou com o laicismo, tornando-se a versão islâmica da democracia cristã europeia.
Christophe Ayad – Le Monde*
Personagem desta entrevista, Gilbert Achcar é professor na School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres e um dos mais respeitados analistas do mundo árabe contemporâneo. Nasceu em 1951 e deixou o Líbano em 1983.
Ensinou na Universidade de París VIII e no Centro Marc-Bloch de Berlim. O seu compromisso com as esquerdas e movimento pró-palestina nunca o impediu de dirigir um olhar severo sobre as ditaduras nacionalistas árabes. É autor de “Le peuple veut une exploration radicale du soulèvement arabe”, editora Actes Sud.
Como qualificar o que aconteceu no mundo árabe, desde 2011?
Escolhi a palavra “levante” como título para o meu livro. Mas, na introdução falo de um processo revolucionário a longo prazo. O que estava claro desde o princípio é que estávamos muito no início de uma explosão, e o que se pode prever com certeza é que será de longa duração.
Emmanuel Todd deu uma explicação demográfica do fenômeno. Você inclina-se mais para uma explicação marxista.
A fase durante a qual o mundo árabe se distinguia por uma demografia galopante acabou há vinte anos. Comecei com a análise da situação em vésperas da explosão, em 2010. Constata-se um bloqueio do desenvolvimento que contrasta com o resto do mundo; inclusivamente com a África subsariana. A expressão mais espetacular desse bloqueio é uma taxa de desemprego recorde, particularmente entre os jovens. Além disso, há uma modalidade específica do capitalismo na região: em diferentes níveis, todos os Estados são rentistas. A outra caraterística é um patrimonialismo no qual o clã dominante se apropria do Estado até ao ponto de o transmitir de forma hereditária.
As revoluções árabes traduziram-se em liberalizações políticas, mas não em grandes mudanças sociais. Por quê?
No Egito e na Tunísia, só foi quebrada a ponta do icebergue; quer dizer, os déspotas e o seu grupo próximo. Por outro lado, nesses dois países, o “Estado profundo”, a administração, os aparelhos de segurança, não mudaram. Neste momento, só na revolução Líbia se deu uma mudança radical: hoje, já não há Estado; já não há exército. Nesse país, o descalabro social foi mais profundo, porque o reduzido espaço privado que existia era ocupado pela família Gadafi.
No Ocidente estranhou-se o triunfo dos islamitas nas eleições, quando não foram eles a lançar essas revoluções…
As expectativas do Ocidente, esse romanticismo em volta da “primavera” e o “jasmim”, todo esse vocabulário orientalista, baseavam-se num desconhecimento da situação. Era evidente que os integristas iam apanhar as castanhas do fogo porque, desde finais dos anos 70, impuseram-se como uma força hegemónica no protesto popular. Encheram o vazio deixado pelo fracasso do nacionalismo árabe. Por outro lado, a principal razão pela qual os governos ocidentais apoiavam os despotismos árabes era o receio dos integristas. Crer que essa situação iria ser varrida pelos acontecimentos, era tomar os desejos por realidades. Com o apoio financeiro do Golfo e o apoio televisivo da Al Jazeera, não se podia esperar outra coisa que vitórias eleitorais integristas. O que é chamativo é que essas vitórias não tenham sido esmagadoras. No Eipto, desde as legislativas ao referendo sobre a Constituição, passando pelas presidenciais, estamos a ver a velocidade a que se desmorona o voto integrista. Na Tunísia, Ennahda consegue 40% numas eleições em que participaram metade das pessoas inscritas. E, na Líbia, a Irmandade Mulçumana local foi derrotada.
Surpeendem-lhe as atuais dificuldades dos islamistas no poder?
Em primeiro lugar, há que dizer que o regresso aos despotismos não é algo exequível. Há que passar pela experiência do islamismo no poder. As correntes integristas construíram-se como forças de oposição com um slogan simplista: o islão é a solução. É algo completamente oco, mas funcionava num contexto de miséria e de injustiça no qual se podia vender essa ilusão. Os islamistas são traficantes do ópio do povo. Desde o momento em que estão no poder, isso já não é possível. São incapazes de resolver os problemas das pessoas. Chegaram aos postos de comando em condições que ninguém inveja e não têm nenhum programa econômico.
Pode-se confiar neles no momento de organizar escrutínios que os poderão expulsar do poder?
Esse é o argumento clássico: uma pessoa, um voto, mas uma só vez. Salvo que cheguem ao poder em posição de força. O povo aprendeu a “querer” sair à rua. Jamais um dirigente, na história do Egito, foi tratado com tanto desprezo pelo seu povo como atualmente Morsi…
Pode-se copiar o modelo turco para o mundo árabe?
Não, na Turquia não é a Irmandade Mulçumana que dirige o país, mas uma cisão modernista que se reconciliou com o princípio do laicismo. O AKP turco é a versão islâmica da democracia cristã europeia. A Irmandade Mulçumana não é isso. É uma organização integrista que milita pela Sharia e para quem a palavra laicismo é uma injúria. No terreno econômico, não tem nada a ver: o AKP encarna um capitalismo de pequenos industriais, enquanto a Irmandade Mulçumana participa numa economia rentista, fundada no lucro a curto prazo.
Pode descrever a influência do Qatar nestas revoluções?
É um enigma. Alguns dirigentes colecionam carros ou armas; o Emir do Qatar, por seu lado, joga na política externa. Apresentou-se como comprador da Irmandade Mulçumana da mesma forma que compraria uma equipe de futebol. Um homem que jogou um papel fundamental nesta nova aliança (que faz recordar a que houve entre Mohamed ben Abdel Wahab e a dinastia dos Saud no século XVIII) é o sheik Qaradhawi, chefe espiritual dos Irmandade Mulçumana, instalado desde há muito no Qatar, e que tem grande influência na Al Jazeera. Tudo isso acontece num país em que o Emir não tolera qualquer oposição.
Como explicar a complacência dos Estados Unidos para com a Irmandade Mulçumana?
É algo que começou sob a administração Bush. Para os neoconservadores, o despotismo nacionalista produziu o terrorismo e, portanto, havia que derrubar déspotas como Saddam Hussein para poder estender a democracia. Condoleezza Rice quis retomar a aliança com a Irmandade Mulçumana, que se deu nos anos 50 e 60. Mas a vitória do Hamas nas eleições palestinianas bloqueou o processo. A administração Obama, que herdou uma situação catastrófica no Médio Oriente, mostrou uma atitude indecisa e prudente. Quando tudo estalou, optou por tentar dar a impressão de acompanhar o movimento. A obsessão de Washington na região é a estabilidade e o petróleo. E a tradução desta obsessão, é a procura de aliados que disponham de uma base popular.
Por que é que a intervenção da OTAN foi possível na Líbia e não na Síria?
A Síria encontra-se perante um risco de caos tipo Líbia, mas num contexto regional bastante mais perigoso. Está também o apoio da Rússia e do Irão. Desde o começo, a OTAN disse que não queria intervir. A questão não é “porque é que o Ocidente não intervém na Síria?”, mas “porque é que impede a entrega de armas à rebelião?”. A razão profunda é o medo do movimento popular na Síria. E o resultado é que a situação está a apodrecer. O regime sírio acabará por cair, mas a que preço? A miopia dos governos ocidentais é alucinante: com o pretexto de não reproduzir os erros cometidos no Iraque, quer dizer, o desmantelamento do estado baasista, fazem algo pior. Hoje, os sírios estão persuadidos de que o Ocidente deixa que o seu país se auto-destrua para proteger Israel.
A esquerda anti-imperialista vê um complô americano nestas revoluções…
Se, por oportunismo, as insurreições populares são apoiadas por potências imperialistas, não justifica que apoiemos as ditaduras. A teoria do complô americano é grotesca. Basta ver o aperto de Washington. É claro que, depois de quarenta anos de totalitarismo, o que chega é o caos, mas, como diria Locke, prefiro o caos ao despotismo, porque no caos tenho uma opção.
Fonte: Carta Maior
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